Cabo Verde, Cabelo e Auto-estima
Passaram muitos anos desde que escrevi aqui; a minha vida deu uma volta de 180 graus.
Por onde começar? Já me perguntei isso milhares de vezes, mas hoje decidi apenas escrever.
Para vos dar um contexto: há cerca de uma semana, Cabo Verde, o meu país natal, jogou contra a Argentina e, embora tenha perdido, fez-se história — uma história que vai afetar a nossa geração e as que estão por vir. E por que estou a mencionar isto?
O sentimento de ser "visto" nunca foi tão grande. Quem nasceu numa pequena ilha pode não ter essa noção, mas os habitantes das ilhas sempre olharam para o horizonte em vez de olharem para dentro. As coisas boas sempre aconteciam no exterior: as oportunidades, a felicidade, etc. Este acontecimento levantou o véu de muitas pessoas com esse tipo de crença, permitindo-nos ver que o lugar onde estamos é digno. É pequeno, sim, mas isso não lhe retira a qualidade, nem tem de ser encarado como um ponto fraco.
Pelo contrário, o facto de ser pequeno obrigou-nos a sair e a procurar saber mais, a ver outras coisas. No entanto, a nossa identidade sempre se manteve forte, e este mundial provou, pela primeira vez, que os cabo-verdianos são mais do que aqueles que vivem nas ilhas — somos todos os que partilham a mesma identidade, quer tenham nascido num país diferente ou tenham um dos pais cabo-verdiano.
Isto fez-me ver como, de um dia para o outro, a perspetiva sobre algo em que sempre acreditámos pode mudar para algo tão grandioso. Esta sensação de que, agora, tudo é possível — independentemente de não haver precedentes. Posso ser a primeira da minha família. Posso ser a primeira a acreditar. Posso até sonhar alto, sem filtros, sair da minha zona de conforto e permitir-me sentir desconfortável.
Então, decidi avançar com o meu sonho: expressar o meu ser sem medos e ser honesta comigo própria. Afinal de contas, sou eu quem vai viver no mundo que estou a co-criar, juntamente com quem está na frequência de o receber.
Há dois anos fui mãe — uma das bênçãos que mais pedi a Deus — e, desde então, o meu núcleo de ideias e crenças está a ser testado mais uma vez. A pressão para ser uma pessoa melhor, que sempre existiu dentro de mim, agora duplicou. A preocupação e a responsabilidade fazem parte desta nova fase, e sinto-me grata por isso, pois Deus achou que eu estava preparada.
No entanto, a dúvida, a minha identidade e a auto-estima foram coisas sacrificadas pelo caminho. Mas, segundo a natureza, faz parte. A maternidade tem essa fase confusa, de adaptação. Todas as mães com quem falo dizem o mesmo. Já o aceitei e já começo a gostar da pessoa em quem me estou a tornar e das lições que a vida me tem ensinado.
Isto leva-me ao momento de hoje. A minha filha está a dormir a sesta. Mudámo-nos para a outro país há um mês e a casa ainda está parcialmente mobilada, mas estou aqui grata porque agora estamos os três, em família. Desde que cheguei, tenho tentado desapegar-me do meu "antigo" eu e habituar-me a esta nova oportunidade de ser mãe, mulher e amiga. Não tem sido fácil, pois a minha mente está confusa e as minhas emoções desreguladas. Quando digo desreguladas, é no sentido de sentir constantemente que devia estar a fazer algo diferente daquilo que estou a fazer no momento.
O meu cabelo reflete exatamente o meu estado. Passei o primeiro ano da maternidade a alisar os meus caracóis pela conveniência e facilidade de lidar com o cabelo tendo um bebé pequeno e estando sozinha em casa. Por causa disso, estou novamente em transição. Que ironia! Quando olho para ele, já se vê o crescimento: tenho cinco dedos de cabelo natural e o resto vou cortando aos poucos. Quem já passou pela transição sabe bem como isso afeta a autoestima. Por um lado, estás a lidar com o que causaste ao teu cabelo (seja direta ou indiretamente) e, por outro, está a crescer um cabelo novo que, a meu ver, tem o potencial de refletir esta nova pessoa.
Sendo eu a criadora da marca As Naturebas — produtos capilares que ajudam pessoas com cabelo crespo/cacheado a cuidar deles de forma intuitiva, com afeto e atenção à individualidade de cada história, rotina e visão —, conheço bem o processo de cuidar de um tipo de cabelo que não é mostrado no mainstream. Um cabelo que muitas pessoas veem como uma "maldição", o que descobri muito cedo ser uma mentira para nos afastar do que é realmente importante: amarmo-nos e aceitarmo-mo como somos.
Vejam bem, a intenção do mainstream é criar um padrão, uma fórmula para que a venda seja mais fácil e direta, criando tendências e produtos, o "problema e a solução", a doença e o remédio. Mas tu, que estás a ler este blog, bem sabes que tudo vem de dentro, inclusive a solução para o que resulta connosco.
Tendo em conta este conhecimento, a questão é: por que razão me sinto estagnada criativamente? Será que estou a fazer a pergunta certa? Será que estou a pedir demasiado de mim mesma ou será que não me estou a esforçar o suficiente? Este tipo de dúvida encontra-me todos os dias, principalmente quando me vou deitar. Há dias em que me canso de ser eu; parece que estou a fugir de mim própria.
Até que, há 1 semana, o meu pequeno país mostrou-me que é sim possível. Basta ter garra e não desistir, ser verdadeira comigo própria. Não sou pequena, sou grande. Não tenho de sonhar limitado só porque fui condicionada a pensar assim. Deram-me o melhor que puderam; agora está nas minhas mãos. E a minha filha olha para mim com os olhos mais lindos que alguma vez vi... Vejo a luz no olhar dela e a admiração que tem pela mãe. O passado e o futuro estão a dizer: "Vai". E hoje, escrevi.
Gratidão.

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